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16/08/2007

Tecnologia (1)
Ciência atropelou a ficção científica na virada do século

Carlos Roberto de Lana*
Especial para a Página 3 Pedagogia & Comunicação

Divulgação

Olho eletrônico do supercomputador HAL 9000, do filme

Olho eletrônico do supercomputador HAL 9000, do filme

Estudar ciências, muitas vezes, parece mais chato do que ir ao cinema. Nenhuma surpresa. A produção de um filme de sucesso geralmente consome meses de trabalho especializado para criar mais ou menos duas horas de diversão.

Quando o filme é de ficção científica a competição se torna ainda mais desleal, uma vez que o gênero é rico em efeitos especiais mirabolantes, ação vertiginosa e histórias cheias de imaginação.

Imaginação insuficiente
Mesmo assim, muito desta imaginação é insuficiente para acompanhar a velocidade dos avanços científicos e tecnológicos da vida real. O século 21 não começou repleto de carros voadores, teletransportes e robôs domésticos, como várias obras do gênero vislumbraram.

Esses fatos não precisam ser encarados como um sinal de fracasso de nossa ciência e tecnologia, pois estas previsões, embora fascinantes, eram um tanto pobres em concepção. Elas ampliavam as capacidades das tecnologias da época, mas não imaginavam tecnologias com capacidades inéditas.

Carros voadores e teletransportes, por mais impressionantes que sejam, continuam não passando de meios de levar as pessoas de um lugar para outro e robôs domésticos se limitam a substituir o trabalho braçal humano.

Criando novas necessidades
Imaginava-se que o progresso técnico traria soluções novas para antigas necessidades.
O que de fato ocorreu em muito maior escala é que este progresso criou novas necessidades, que não existiam antes do desenvolvimento de determinadas tecnologias.

Um exemplo, claro, é a internet. A rede mundial de computadores não ampliou as alternativas de informação existentes. Criou alternativas de informação absolutamente inéditas, potencializadas pelo poder de varredura dos motores de busca, principalmente o google.

A internet também veio na contramão da grande maioria das previsões ficcionais sobre o futuro dos computadores, quase sempre representados na figura de um gigantesco e poderosíssimo mainframe que centralizava todos os processamentos eletrônicos, muitas vezes como metáfora da tirania do automatismo sobre a individualidade humana.

Desencontros entre ficção e realidade
O que aconteceu de fato foi exatamente o contrário. Ao invés de um enorme e centralizado hardware, o universo cibernético se dividiu em centenas de milhões de pequenas unidades processadoras autônomas, interligadas entre si em escala mundial, o que dá a rede mais poder de informação do que qualquer computador individual poderia comportar, independente de seu tamanho.

Outro ponto de distanciamento, sutil, mas expressivo, entre a realidade cientifica e a ficção, no caso da tecnologia eletrônica da informação, foi que os ficcionistas costumavam apostar suas fichas nos hardwares, como o célebre supercomputador HAL 9000 de "2001, Uma Odisséia no Espaço".

Na realidade atual, foram os softwares que conquistaram o lugar de destaque, comandando quase tudo que os computadores fazem, deixando para as máquinas o papel de fornecer o ambiente físico, velocidade de processamento e capacidade de memória. Uma curiosidade: quem quiser saber de onde veio o nome do computador HAL 9000 deve apenas substituir suas letras pelas imediatamente seguintes na ordem alfabética.

» Tecnologia(1)

*Carlos Roberto de Lana é engenheiro químico e professor.
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